segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Gabi Callejas, Cidade Ativa


Gabriela Callejas é arquiteta urbanista brasileira formada pela FAUUSP (2009), com mestrado em desenho urbano pela Graduate School of Architecture, Planning and Preservation (GSAPP), Columbia University. Teve experiência no escritório de Desenho Urbano do Departamento de Planejamento de Nova Iorque em 2011 e 2012 e participou da elaboração do estudo Active Design: Shaping the Sidewalk Experience.

O que é Active Design?

Gabi: O Active Design é um movimento que começou nos Estados Unidos e que promove hábitos saudáveis e estilo de vida ativo a partir do desenho de nossos edifícios, de nossas cidades, e de políticas públicas nas áreas de planejamento, construção e saúde. As diretrizes defendidas pelo Active Design foram consagradas através da publicação do Active Design Guidelines - desenvolvido pelos Departamentos e Planejamento, de Construção, de Transporte e de Saúde da Cidade de Nova Iorque-, e de outros estudos que o procederam. Em conjunto com o AIA - American Institute of Architects - e com governos locais de diversas cidades dos Estados Unidos, o movimento vem ganhando força nos últimos anos através de eventos anuais realizados sobre o tema – os Fit City. Desde 2011, o Active Design ganhou relevância mundial através dos encontros Fit World e passou a reunir profissionais de todo o mundo em iniciativas que propõem uma nova maneira de pensar cidades e a saúde de seus cidadãos.
Aqui no Brasil, o primeiro encontro sobre o tema aconteceu em abril deste ano. O primeiro Fit Cities São Paulo foi organizado pelo Cidade Ativa em conjunto com o USP Cidades e atraiu mais de 200 pessoas dos mais diferentes perfis, incluindo estudantes e profissionais das áreas da arquitetura, urbanismo, saúde, engenharia...

Como nasceu o Cidade Ativa e como a iniciativa está promovendo o active design no Brasil?

Gabi: Tudo começou quando eu ainda morava nos Estados Unidos, em 2012. Fui chamada para trabalhar no departamento de planejamento da cidade de Nova Iorque e acabei me envolvendo com o projeto Active Design através de uma pesquisa sobre calçadas.
Naquele ano aconteceu o primeiro Fit World em Nova Iorque e foi aí que o Bittar e eu nos conhecemos. Na verdade foi tudo uma grande coincidência: eu sou arquiteta urbanista, mas meus pais são médicos. Durante muito tempo meu pai ainda acreditava que eu seria médica um dia. O fato de eu estar em um projeto que relacionava urbanismo, arquitetura e saúde deu um “click” no meu pai – acho que aí ele entendeu um pouquinho melhor o que eu fazia como urbanista. E ele começou a contar a minha história para todos os pacientes dele - inclusive para aquele que seria o pai do Bittar. Trocamos e-mails, eu lá e ele aqui no Brasil, e chamei ele para participar do Fit World. O Bittar já vinha fazendo um trabalho bem legal na área de planejamento urbano, principalmente como vereador de Botucatu e coautor do Plano Diretor de lá.
A partir daí estivemos trabalhando para formar um grupo que divulgasse a iniciativa aqui no Brasil. Tivemos um apoio enorme da Dra Karen Lee e da Skye Duncan, que são também idealizadoras do grupo, e conseguimos nos institucionalizar este ano como uma Organização Social com ajuda de outras pessoas, que abraçaram a causa, como o Ramiro e a Rafaella. No início, a nossa principal meta era organizar um evento aqui no Brasil que trouxesse o tema do Active Design. Consideramos que o Fit Cities São Paulo foi um grande sucesso e queremos continuar organizando os futuros encontros com nossos parceiros. Além dos eventos, fazemos workshops que exploram as diretrizes do Active Design em atividades práticas, fizemos um Safári Urbano, atividade que explorou as calçadas da região da Berrini, e já temos programadas outras medições de calçadas em outras cidades. Organizamos e participamos de campanhas, coordenamos um grupo de trabalho que nasceu do Fit Cities e que reúne pessoas de outras ONGs, empresas, instituições de ensino, e divulgamos ações, projetos e pesquisas através do nosso site e página do facebook. Recentemente começamos também a participar de projetos e pesquisas e queremos ajudar outras organizações a incorporar as diretrizes Active Design em projetos e processos internos.
Um projeto muito interessante que estamos desenvolvendo agora é o  "Olhe o Degrau", que inclusive recebeu um prêmio em um concurso internacional, o Urban Urge Awards.

Conte-nos a respeito do "Olhe o Degrau", o que é e quais são as expectativas?

Gabi: "Olhe o Degrau" é um projeto que procura aumentar o reconhecimento sobre as escadarias como oportunidades de espaços públicos e como importantes conexões na rede de pedestres da cidade de São Paulo. A ideia é transformar escadarias através de iniciativas que engajem a comunidade local por meio de intervenções urbanas.  Esse projeto surgiu a partir de uma leitura nossa sobre a estrutura urbana de São Paulo: a maioria das avenidas estão ao longo de rios e córregos e nos topos de morros. Este modelo de desenvolvimento trouxe a necessidade de conectar diferentes níveis da cidade, o que é feito por escadas nos locais mais íngremes. Essas escadarias funcionam como “atalhos” na rede de mobilidade para pedestres e o reconhecimento destas conexões pode ajudar a aumentar o uso do transporte ativo e reduzir o uso de veículos particulares na cidade, amenizando as crises de mobilidade que São Paulo está enfrentando atualmente. Sem falar que subir escadas é uma ótima maneira de fazer exercício!

Apesar das escadarias estarem espalhadas em toda a cidade, não existe um trabalho significativo disponível sobre este tema, nem mesmo um banco de dados confiável com localização das escadaria e suas características. Além disso, uma vez que hoje as escadas representam no imaginário das pessoas perigo, lugares sujos e descuidados, não existe um mapeamento mental desta rede - há uma enorme incerteza sobre a existência das escadarias e o potencial que elas escondem.

Então, o primeiro desafio do projeto é aumentar o reconhecimento sobre as escadas. Nossa estratégia consiste em criar dispositivos físicos e virtuais que permitam que as pessoas perceberem a existência das escadarias. Queremos fazer placas de sinalização que indiquem onde elas estão e elaboramos, em conjunto com o Cidadera, uma plataforma de mapeamento colaborativo que será usada para localizar as escadarias da cidade. Este dispositivo pode ser usado para coletar informações sobre esses lugares e criar um catálogo on-line de tipologias de escadarias, que pode ser usado quase como um guia turístico das escadarias.

A outra estratégia do projeto é realmente requalificar estes espaços através de iniciativas com a comunidade. O projeto piloto para a escadaria da Rua Alves Guimarães explora essa metodologia e utiliza o Prêmio Urban Urge para iniciar essa mudança de paradigma: ele inicia uma transformação de longo prazo através uma intervenção muito simples que envolve apenas  lâmpadas, tinta, mobiliário urbano e a organização de eventos para chamar a atenção das pessoas e então proporcionar o reconhecimento sobre os potenciais das escadarias.


O Cidade Ativa utiliza a plataforma Cidadera para mapear colaborativamente as escadarias de São Paulo através da iniciativa "Olhe o Degrau".

Acesse o Olhe o Degrau
https://olheodegrau.cidadera.com